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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

A Neurobiologia da Mudança: Por que a Força de Vontade Sozinha Falha na sua Evolução

 Muitas pessoas bem-sucedidas e de alta performance acreditam que a evolução pessoal e a superação de padrões disfuncionais são questões exclusivas de "força de vontade". No entanto, a neurociência e a prática clínica revelam uma realidade diferente: o cérebro humano possui limites metabólicos rígidos. 

 A célebre máxima popular **"evitar lugares, hábitos e pessoas"** não é um conselho moralista ou um sinal de fraqueza. Trata-se, na verdade, de uma estratégia neurobiológica exata de controle de estímulos. Para que o cérebro consolide novas vias neurais e promova uma mudança sustentável, ele precisa de um ambiente de baixa fricção cognitiva. 

Abaixo, desconstruímos a tríade clássica sob a ótica da neuroquímica e da neurobiologia. 


 --- ## 1. Lugares: A Neurobiologia do Contexto e os Gatilhos Invisíveis.

  O cérebro não processa o espaço físico de forma neutra. Diante de um ambiente associado a padrões antigos (sejam eles de estresse, consumo de substâncias ou autossabotagem), ocorre uma ativação em cascata que opera totalmente abaixo do limiar da consciência. * **A Via Hipocampo-Amígdala-Accumbens:**

 O **hipocampo** (que codifica as coordenadas espaciais e a memória episódica) e a **amígdala basolateral** (que atribui valência emocional ao ambiente) disparam projeções glutamatérgicas diretamente para o **núcleo accumbens** (estriado ventral).

 * **A Antecipação Dopaminérgica:** 

Esse influxo excitatório desencadeia uma liberação fásica de dopamina a partir da **Área Tegmentar Ventral (ATV)** para o accumbens.

 Essa liberação não sinaliza o prazer em si, mas sim o **erro de predição de recompensa** e a **saliência de incentivo** (*craving*). 

* **O Sequestro de Atenção:** 

O cérebro interpreta o lugar antigo como uma pista preditiva de recompensa iminente. Isso gera um impulso involuntário de repetição, estreitando o foco atencional e tornando a resistência cognitiva extremamente desgastante. 

 **A perspectiva clínica:**

 Evitar o lugar físico impede a ativação dessa via glutamatérgica ascendente. Sem o estímulo condicionado, não há o pico fásico de dopamina, poupando o córtex pré-frontal de uma batalha constante. --


- ## 2. Hábitos: A Migração Física do Controle Cognitivo 

 A consolidação de um hábito representa uma mudança física na fiação sináptica do cérebro, caracterizada pela transição do controle de redes associativas para redes sensório-motoras. 

 * **Controle Direcionado a Metas (*Goal-Directed*): **

 Comportamentos novos ou que exigem esforço consciente dependem da alça que conecta o **córtex pré-frontal** ao **estriado dorsomedial** (núcleo caudado). É um circuito metabolicamente caro, que consome alta taxa de glicose e oxigênio. * 

**Automatização Habitual (*Habitual Control*):** 

Com a repetição, o controle sináptico migra para a alça sensório-motora, centralizada no **estriado dorsolateral** (putâmen). Uma vez consolidado aqui, o comportamento torna-se um "bloco de ação" executado de forma reflexa. 

* **Enfraquecimento por Desuso (Poda Sináptica):** 

Tentar parar um hábito automatizado usando apenas a força de vontade é biologicamente ineficiente. A verdadeira evolução exige o desuso prolongado dessas vias antigas para ativar a **depressão de longo prazo (LTD)** e a poda microglial, enfraquecendo a fiação antiga enquanto novas vias pré-frontais são fortalecidas pela repetição intencional. 


 --- ## 3. Pessoas: Neurônios-Espelho e a Carga Alostática Social

 O cérebro humano é um sistema socialmente acoplado. A presença de pessoas que reforçam o padrão antigo atua como uma força de gravidade neuroquímica e alostática. * 

**Mimetismo Visceral e Motor:** 

O **sistema de neurônios-espelho** (no córtex pré-motor e lóbulo parietal inferior) simula internamente as ações, microexpressões e estados afetivos das pessoas ao redor. Conviver com quem mantém os hábitos disfuncionais mantém as vias neurais antigas em constante estado de subativação (*priming*).

 * **A Dor da Dissonância Social:** 

A tentativa de mudar de comportamento dentro de um grupo que não compartilha dessa evolução gera dissonância. O cérebro processa a ameaça de exclusão ou julgamento social no **córtex cingulado anterior dorsal (CCAd)** e na **insula anterior** — as mesmíssimas áreas que processam a valência afetiva da dor física. 

* **Recompensa Social:** 

A conformidade social, por outro lado, é recompensada com a liberação de **ocitocina** e **opioides endógenos** no estriado, reduzindo a atividade da amígdala e o estresse.

 **A perspectiva clínica:** 

Afastar-se de pessoas que ancoram você à sua identidade antiga protege o sistema nervoso do estresse de rejeição e do mimetismo inconsciente, permitindo que o cérebro se estabilize em uma nova homeostase social. 

 --- ## O Esgotamento do Controle *Top-Down* e a Evolução Real

 O **córtex pré-frontal dorso-lateral (CPFDL)** exerce o controle inibitório (*top-down*) sobre o sistema límbico e os gânglios da base. Contudo, a capacidade de processamento do CPFDL é estritamente limitada e vulnerável à fadiga metabólica (fenômeno conhecido como esgotamento do ego). 

 Quando tentamos evoluir mantendo-nos expostos aos mesmos lugares, hábitos e pessoas, forçamos o córtex pré-frontal a trabalhar em regime de sobrecarga crônica para inibir dezenas de gatilhos diários. Sob condições de estresse, cansaço ou privação de sono, o sistema pré-frontal sofre um *downregulation* temporário. Sem essa modulação, o cérebro reverte automaticamente para os caminhos neurais mais robustos e antigos.

 A máxima funciona porque **substitui o esforço de inibição interna ativa** (biologicamente frágil e finito) pelo **controle ambiental passivo** (estável e sustentável).

 A verdadeira evolução é silenciosa e **duradoura**. Ela não se apoia na exaustão da sua força de vontade, mas na inteligência de desenhar um ecossistema que proteja a sua biologia e potencialize a sua mente.

O Algoritmo da Mente: Como o seu cérebro filtra a realidade que você enxerga

Você já reparou que, ao decidir comprar um determinado modelo de carro, ele parece surgir magicamente em cada esquina? Ou que, em períodos de grande estresse, absolutamente tudo ao seu redor parece dar errado de forma sistemática?

Não se trata de misticismo, destino ou mera coincidência. É neurobiologia pura.

A verdade é que o seu cérebro possui um filtro extremamente sofisticado, um verdadeiro "algoritmo biológico" que determina o que chega à sua consciência e o que permanece oculto.


O Guardião da sua Atenção: O que é o SAR?

No nosso tronco encefálico opera uma estrutura essencial chamada Sistema Ativador Reticular (SAR). Ele funciona de maneira análoga aos algoritmos das redes sociais que você utiliza diariamente: sua principal função é filtrar a avalanche de estímulos sensoriais que recebemos a cada segundo, selecionando apenas aquilo que você, conscientemente ou não, definiu como "relevante".

O SAR é o responsável por garantir que você não entre em colapso com o excesso de informações do ambiente, funcionando como o porteiro da sua mente.

[Insira aqui a imagem conceitual do Sistema Ativador Reticular - Posição 42]


A Metáfora da Roseira: Espinhos ou Flores?

Para compreender o impacto prático desse sistema na sua performance mental e na sua saúde emocional, imagine uma roseira.

A roseira é uma planta única, mas que carrega duas realidades coexistentes: a beleza e a vitalidade de suas rosas, e a rigidez defensiva de seus espinhos. O seu Sistema Ativador Reticular decide em qual dessas partes a sua lente mental focará.

[Insira aqui a imagem comparativa das roseiras - Posição 38]

  • O Filtro da Dor e da Autodefesa (Esquerda): Se a sua mente está programada para a hipervigilância, focada em problemas, mágoas ou ameaças, o seu cérebro se tornará um especialista em detectar "espinhos". Você enxergará riscos em cada oportunidade e motivos para desanimar em cada cenário.
  • O Filtro da Oportunidade e do Crescimento (Direita): Quando você treina intencionalmente o seu olhar para buscar soluções, aprendizados e progresso, o algoritmo cerebral começa a ignorar os ruídos e a evidenciar as "flores" — caminhos e saídas que sempre estiveram ali, mas que antes eram invisíveis para você.

O Impacto Clínico: O Ciclo do Sofrimento e da Autopiedade

Como médica psiquiatra, vejo frequentemente em consultório o sofrimento profundo de pacientes brilhantes e altamente bem-sucedidos que se tornam prisioneiros de seus próprios filtros neurais.

Quando passamos por uma fase difícil e permitimos que a preocupação excessiva ou a autopiedade assumam o controle, o cérebro entra em um ciclo de retroalimentação negativa. Ele passa a escanear o mundo em busca de validações para aquela dor, mostrando apenas situações difíceis e ignorando qualquer sinal de saída.

[Insira aqui a imagem da expressão de sofrimento - Posição 41]

Esse estado de sofrimento constante não reflete a realidade total da sua vida, mas sim a realidade selecionada pelo seu filtro biológico.


Retome o Controle do seu Algoritmo

A grande virada de chave que a neurociência nos traz é que o Sistema Ativador Reticular é altamente treinável. Moldar o que é mostrado para nós no dia a dia é uma habilidade que depende de prática e intencionalidade.

Para reprogramar o seu algoritmo mental:

  1. Defina suas intenções pela manhã: Comece o dia determinando ativamente no que você quer focar (soluções, produtividade, conexões de valor).
  2. Questione seus filtros: Ao se pegar focado apenas nos espinhos, pergunte-se: "O que de positivo ou produtivo está acontecendo aqui que meu cérebro está ignorando?"
  3. Pratique a atenção intencional: Treine sua mente para registrar pequenas vitórias e caminhos viáveis.

Sua realidade não é o que acontece com você, mas sim o que o seu cérebro decide filtrar. Treine o seu foco.

A Arquitetura da Mente: Por que o Sono é o Ativo Mais Valioso da Alta Performance

Arquitetura da Mente: Por que o Sono é o Ativo Mais Valioso da Alta Performance Autora: Dra. Débora Psiquiatra Data: 07 de setembro de 2026 Ao longo de mais de duas décadas e meia no consultório de psiquiatria, recebi dezenas de empresários, executivos de grandes corporações e acadêmicos brilhantes que dividem uma mesma convicção oculta: a ideia de que o sono é um custo operacional negociável. Em algum momento de suas trajetórias, aprenderam a glamorizar a privação do descanso como uma insígnia de resiliência e disciplina. No entanto, quando olhamos para a neurofisiologia, essa narrativa se desfaz por completo. Na obra fundamental do neurocientista Dr. Matthew Walker, Por que Nós Dormimos, encontramos um alerta contundente: a privação crônica de sono não é uma prova de força de trabalho; ela é uma forma lenta e sistemática de redução da capacidade cognitiva e da inteligência executiva. Quando você abre mão de duas horas de sono para estender a sua jornada de decisões, o seu cérebro não se torna mais produtivo. O que ocorre, na verdade, é uma diminuição drástica no tempo de reação, na estabilidade emocional e na clareza do córtex pré-frontal. Você passa a tomar decisões com um cérebro cuja eficiência biológica foi subtraída. O Sistema Glifático: A Faxina Noturna do Cérebro Para entender por que o sono é um imperativo não negociável, precisamos observar como o tecido cerebral lida com os próprios resíduos do seu funcionamento. O cérebro consome cerca de 20% de toda a energia do nosso organismo, gerando uma quantidade volumosa de subprodutos metabólicos ao longo de cada dia de atividade intensa. Diferente de todos os outros órgãos do corpo humano, o cérebro não possui uma rede de vasos linfáticos tradicionais. Durante séculos, a medicina se perguntou como o tecido nervoso conseguia eliminar suas próprias toxinas sem colapsar. A resposta veio por meio de uma descoberta extraordinária liderada pela Dra. Maiken Nedergaard, na Universidade de Rochester: o Sistema Glifático. Como funciona a depuração glifática: durante as fases mais profundas do sono não-REM, as células gliais do cérebro encolhem cerca de 60%, abrindo espaço no tecido intersticial. Esse fenômeno permite que o fluido cerebroespinal penetre de forma ritmada e com alta pressão entre os neurônios, promovendo uma verdadeira lavagem química do parênquima cerebral. Entre as substâncias que são varridas durante esse processo está a proteína beta-amiloide — cuja agregação está diretamente associada à gênese da Doença de Alzheimer — além da proteína tau hiperfosforilada. Quando você passa a noite em claro ou fragmenta o seu sono, essa faxina molecular simplesmente não ocorre na profundidade necessária. As placas metabólicas permanecem retidas no tecido neural, promovendo uma neuroinflamação silenciosa e insidiosa. Em termos clínicos muito claros: a preservação da sua lucidez aos setenta, oitenta ou noventa anos está sendo decidida pela qualidade da depuração glifática que acontece nas suas noites de hoje. Imunidade e Longevidade: O Escudo das Células Natural Killer A degradação causada pela privação de sono não se restringe à integridade das vias neurológicas; ela desmonta de maneira agressiva a nossa primeira linha de defesa imunológica. O sono é o imunomodulador mais potente e sofisticado de que a medicina dispõe. Para demonstrar isso, o Dr. Michael Irwin, professor de psiquiatria e ciências biofuncionais na UCLA, conduziu um estudo clínico emblemático avaliando o comportamento das chamadas células Natural Killer (NK). Essas células constituem a divisão de elite da nossa imunidade inata, responsáveis por identificar e destruir corpos estranhos, agentes virais invasores e células malignas antes que possam se transformar em tumores consolidados. Os resultados obtidos pelo Dr. Irwin foram alarmantes: uma única noite com o sono restrito a apenas 4 horas reduziu a atividade citotóxica das células Natural Killer em impressionantes 70%. Essa queda ocorre em menos de vinte e quatro horas. Imagine a gravidade desse cenário no organismo de um líder que sustenta uma rotina de privação crônica durante meses a fio. Ele está, na prática, operando o seu sistema imunológico em estado de desarmamento completo. A Organização Mundial da Saúde chegou a classificar formalmente qualquer forma de trabalho em regime de turnos noturnos como um provável carcinógeno humano, em decorrência da ruptura dos ritmos circadianos e do colapso da vigilância imune. O Coração no Limite: O Experimento Global do Horário de Verão Existe uma pergunta que frequentemente me fazem em consulta: "Doutora, perder apenas 45 minutos ou uma hora de sono por noite realmente faz tanta diferença na minha saúde a ponto de exigir uma mudança de rotina?" Para responder a isso com rigor estatístico absoluto, não precisamos olhar para amostras laboratoriais fechadas. Temos à nossa disposição um experimento natural gigantesco, realizado duas vezes por ano com mais de 1,5 bilhão de pessoas em dezenas de países ao redor do mundo: a mudança do Horário de Verão. Na Primavera (+1 hora de privação): quando a população do hemisfério norte perde exatamente uma hora de sono na transição da primavera, os registros hospitalares revelam um aumento documentado de aproximadamente 24% na incidência de infartos agudos do miocárdio no primeiro dia útil subsequente. No Outono (+1 hora de descanso): Quando o relógio retorna e a população ganha essa mesma única hora extra de sono reparador, as taxas de infarto registram uma redução estatisticamente equivalente de cerca de 21%. Esse padrão não se limita a eventos coronarianos; ele se repete de forma idêntica nas taxas de acidentes vasculares cerebrais (AVC) e episódios de crises hipertensivas agudas. O sistema cardiovascular humano é extremamente sensível aos ritmos circadianos. Durante o sono profundo, o nosso tônus simpático diminui, a frequência cardíaca desacelera e a pressão arterial experimenta uma queda restauradora chamada descenso noturno. Se você subtrai essa janela de amortecimento vascular, o coração e o endotélio permanecem expostos a níveis sustentados de cortisol e tônus adrenérgico, deteriorando precocemente a microvasculatura. Pragmática do Sono: Protocolo de Otimização para Alta Performance Compreendido o mecanismo biológico, a pergunta necessária torna-se estritamente prática: como um profissional com uma rotina complexa e agenda sobrecarregada pode blindar a arquitetura do seu sono? Proponho quatro intervenções estruturais baseadas em evidências clínicas: 1 Regularidade e Consistência Circadiana: O nosso cérebro opera em ciclos guiados por osciladores moleculares. Acordar e deitar rigorosamente no mesmo horário — inclusive aos finais de semana — é a âncora mais potente para regular a secreção de melatonina endógena e sincronizar os relógios biológicos periféricos. 2 Termorregulação do Ambiente: Para que o cérebro inicie o processo de adormecimento, a temperatura interna do corpo precisa cair cerca de 1°C. Ambientes aquecidos impedem essa dissipação térmica. Mantenha o seu quarto em uma temperatura próxima a 18°C–20°C. Um banho morno antes de deitar facilita a vasodilatação periférica, acelerando a perda de calor central. 3 A Curva Farmacocinética da Cafeína: A cafeína possui uma meia-vida plasmática média de 5 a 7 horas, e uma vida de eliminação que pode ultrapassar 12 horas. Aquele café tomado às 16h ainda estará ocupando cerca de um quarto dos receptores de adenosina no seu cérebro à meia-noite, impedindo que a pressão homeostática atinja a profundidade correta. Estabeleça uma janela de corte rígida para a cafeína até o meio-dia. 4 Higiene Espectral e Descompressão Visual: O espectro de luz azul emitido por telas de alta resolução suprime a glândula pineal em até duas horas. Desconecte-se de dispositivos móveis pelo menos 60 minutos antes de dormir, trocando a luminosidade branca por fontes de luz indireta de tom ambarado. O Sono como Decisão Estratégica No universo da alta performance, costumamos falar muito sobre estratégias de investimento, expansão de negócios, gestão de riscos e formação de capital. No entanto, o seu ativo intelectual e biológico mais insubstituível é a sua integridade cerebral. O sono não é um luxo opcional que desfrutamos quando todo o trabalho do dia está terminado. Ele é a fundação neurobiológica primária sobre a qual a sua inteligência, a sua capacidade de liderança, a sua empatia e a sua longevidade são sustentadas. Proteger as suas oito horas de descanso noturno não é um recuo na sua produtividade; é a decisão executiva mais estratégica e sofisticada que você pode tomar hoje pela sua saúde e pelo seu futuro. Durma com o mesmo rigor e seriedade com que você lidera a sua vida. Cuidem da sua biologia! Dra. Débora Christina Ribas DÁvila Psiquiatria para mentes de alta performance Referências Científicas * XIE, Lulu et al. Sleep Drives Metabolite Clearance from the Adult Brain. Science, v. 342, n. 6156, p. 373-377, 2013. DOI: 10.1126/science.1241224. * IRWIN, Michael et al. Partial night sleep deprivation reduces natural killer and cellular immune responses in humans. The FASEB Journal, v. 10, n. 5, p. 643-653, 1996. DOI: 10.1096/fasebj.10.5.8621064. * SANDHU, Amneet; SETH, Milan; GURM, Hitinder S. Daylight savings time and myocardial infarction. Open Heart, v. 1, n. 1, p. e000019, 2014. DOI: 10.1136/openhrt-2013-000019. * WALKER, Matthew P. Why We Sleep: Unlocking the Power of Sleep and Dreams. New York: Scribner, 2017. * ILIFF, Jeffrey J. et al. A Paravascular Pathway Facilitates CSF Flow Through the Brain Parenchyma and the Clearance of Interstitial Solutes, Including Amyloid β. Science Translational Medicine, v. 4, n. 147, 2012. DOI: 10.1126/scitranslmed.3003748.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Relatório JIFE 2013 indica que abuso de medicamentos supera o de drogas ilícitas



    Relatório JIFE 2013 indica que abuso de medicamentos supera o de drogas ilícitas
    Relatório anual da JIFE 2013 foi lançado na terça-feira, 5/03São Paulo, 5 de março de 2014.
    O consumo abusivo de medicamentos vendidos com prescrição médica aumenta no mundo e representa uma ameaça crescente para a saúde pública. Esse alerta está no relatório anual divulgado pela Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife) ou Internacional Narcotics Control Board (INCB) na terça-feira, 4/3, em Viena, Áustria. A Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife) é um órgão de fiscalização independente para a implementação das Convenções Internacionais das Nações Unidas de controle de drogas. Foi estabelecida em 1968 de acordo com a Convenção de Drogas de 1961.
    O relatório destacou que o uso abusivo de medicamentos se intensificou em todas as regiões, superando a taxa de consumo de drogas ilícitas, no entanto a Jife não informou quais são esses países. A Junta observa que o aumento da prevalência de abuso de medicamentos tem sido impulsionado, em grande medida, pela ampla disponibilidade desses medicamentos, bem como pelas percepções errôneas de que medicamentos são menos suscetíveis ao abuso do que drogas ilícitas. O problema é ainda agravado pelo uso destes medicamentos sem prescrição para automedicação.
    O ambiente familiar é a principal fonte de medicamentos que não são mais necessários ou utilizados para fins médicos, posteriormente desviados para o abuso. Pesquisas sobre prevalência de abuso realizadas em vários países revelaram que uma percentagem significativa das pessoas que abusam de medicamentos recebeu pela primeira vez de um amigo ou membro da família que o havia adquirido legalmente.
    A Jife ressalta que o abuso de medicamentos é uma ameaça grave e crescente para a saúde pública na América do Norte, que é a região com a maior taxa de mortalidade relacionada a drogas no mundo e que as mulheres consomem mais que os homens.
    A Jife reitera que qualquer estratégia global destinada a combater o problema do abuso de medicamentos também deve abordar as causas do excesso da oferta de medicamentos prescritos, incluindo a distribuição de receitas de forma exagerada pelos médicos, a prática de ir a vários médicos para conseguir diversas prescrições e o controle inadequado sobre a emissão e preenchimento de prescrições.
    Venda pela internet
    No capítulo referente ao abuso de drogas lícitas, a junta chama atenção para a venda ilegal de medicamentos pela internet, algo que cresce conforme aumenta o acesso da população à rede. 
    Segundo a Jife, vários países da Europa e da América do Norte realizam campanhas regulares, muitas vezes na própria web, para informar o público sobre os perigos potenciais de encomendar produtos farmacêuticos pela internet. Alguns desses sites inclusive têm ferramentas para ajudar o consumidor a verificar se a empresa em questão existe e é idônea. Alguns também têm espaço para denúncias.
    Opioides
    O relatório destacou também o abuso de tramadol, opiáceo utilizado como analgésico e que gera dependência, problema que já havia sido ressaltado no relatório de 2012. Mais de 30 países (dos 80 que participaram do levantamento) reportaram o uso recreativo da substância. E os índices vêm aumentando em 12 deles. Para a Jife, é importante que o medicamento seja rigidamente controlado em todos os países.
    Dados brasileiros
    Em todo o relatório há apenas menção ao Brasil, mas sem dados estatísticos, já que o país faz parte das nações que não enviaram o relatório anual com estatísticas sobre substâncias psicotrópicas antes do prazo de 30 de junho 2012. Entre os países que não enviaram os dados estão justamente os que mais produzem, importam e exportam essas substâncias, como Austrália, Brasil, Canadá, China, França, Alemanha, Índia, Japão, Holanda, Paquistão e Estados Unidos.
    Segundo a Jife, a apresentação tardia ou a não apresentação de relatórios estatísticos torna difícil para a Junta monitorar as atividades lícitas que envolvem substâncias controladas e atrasa a análise sobre a disponibilidade mundial de tais substâncias para propósitos legítimos.

    segunda-feira, 31 de agosto de 2015



    Estudo realizado na UFMG quer saber em que situações, quantos comprimidos e por quanto tempo jovens saudáveis usam remédio com o intuito de turbinar o cérebro

    Antonio Scarpinetti/Unicamp
    Brasil é o segundo maior consumidor de metilfenidato no mundo; pesquisadores querem traçar perfil de uso em jovens saudáveis
    (UFMG), Daniela Junqueira. O Brasil é o segundo do mundo da Ritalina, atrás apenas dos EUA. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), só em 2011, foram comercializadas 1.212.850 caixas do medicamento nas farmácias do país. Dados do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) apontam que, em dez anos, o consumo de metilfenidato – substância ativa dos dois medicamentos – cresceu 775%. O montante da substância, seja importada ou produzida no País, passou de 122 kg em 2003 para 578 kg em 2012, crescimento de 373%.
    Os números de uso são muito altos, mas pouco se sabe sobre o perfil de pessoas que tomam o medicamento, nem quantas usam a substância com o intuito de turbinar o cérebro. Daniela é orientadora da pesquisa de iniciação científica da aluna de graduação Raissa Fonseca Cândido, que desenvolve um estudo com o intuito de traçar um panorama, entre estudantes da UFMG, sobre o uso de medicamento para melhoria do desempenho acadêmico. A universidade tem quase 50 mil alunos.
    “Existem estudos realizados nos Estados Unidos que mostram que 10% dos estudantes universitários usam metilfenidato. No Brasil, ainda não temos um estudo amplo sobre isto. Não sabemos para quê as pessoas estão fazendo uso e o medicamento está entre os cinco mais vendidos”, disse Raíssa.
    A estudante de farmácia afirma que, quando começou a pesquisa, achou que fosse encontrar mais referência de estudos realizados pelo Brasil. Mas são poucos. Na biblioteca Scielo só existem 34 estudos sobre metilfenidato cadastrados. Uma pesquisa publicada neste ano e feita com estudantes do quinto e sexto ano de uma faculdade de Medicina no Rio Grande do Sul, mostrou que 34,2% dos participantes já haviam usado metilfenidato, sendo que 23,02% haviam usado a substância sem a indicação médica.
    Raíssa acredita que o uso exagerado do medicamento esteja relacionado com a pressão social por ter sempre bons resultados e produzir cada vez mais. “Tem também a cultura do imediatismo, um interesse por resultados rápidos, de querer ir bem na prova estudando apenas uma hora”, completa Daniela.
    Um estudo realizado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostrou que a Ritalina não promove melhora cognitiva em pessoas saudáveis. O estudo foi feito com 36 jovens (entre 18 e 30 anos) divididos em quatro grupos: um parte tomou placebo e os outros três doses únicas de 10 mg, 20 mg ou 40 mg da medicação. Depois de tomarem os comprimidos, os participantes fizeram testes de atenção e memória. Os quatro grupos tiveram desempenho semelhantes.
    “É um medicamento estimulante do sistema nervoso central, é um dos derivados da cocaína, a pessoa se sente mais condicionada, mas o desempenho, de fato, não melhora”, afirma Daniela.
    A farmacêutica ressalta que o medicamento tem efeitos colaterais no sistema cardiovascular (taquicardia e hipertensão), além de causar dependência. “É um fármaco autorizado para situações específicas, não para este tipo de uso. Outro problema é que os estudos sobre efeitos colaterais medem períodos de no máximo dois anos de uso. Não se sabe o que pode acontecer no longo prazo”, disse.

    segunda-feira, 20 de julho de 2015

    Vício em jogos pela Internet

     05/03/2015 14h43- Jornal Hoje - portal G1

    No final do ano passado, o chamado "transtorno por jogos de internet" passou a fazer parte do manual usado por psiquiatras do mundo todo. Ele auxilia nos diagnósticos de doenças mentais, o DSM.

    Na Universidade de São Paulo (USP), um ambulatório foi criado para tratar os dependentes de tecnologia.
    “O grande ponto de preocupação nosso na verdade não é o jogo em si ou a internet em si, mas é o fato que esses jovens eles estariam, na medida em que eles ficam muito tempo conectados, perdendo habilidades importantes. Criando então na vida adulta problemas sérios de relacionamento”, explia Cristiano Nabuco, coordenador do Laboratório de Dependências Tecnológicas da USP.

    Os especialistas alertam é para os excessos, o tempo que as pessoas passam jogando. Quando só existia a tela do computador era mais fácil controlar, mas agora com as plataformas móveis, como tablets e smartphones, a gente pode jogar a qualquer hora e em qualquer lugar.

    “Teve um tempo que eu tava muito viciado mesmo, que eu chegava na sexta-feira, eu nem ia para o colégio, ia direto para uma lan house, ficar jogando”, conta o narrador de games William Lemos, conhecido como Gordox entre os jogadores.

    Na adolescência, William repetiu de ano na escola duas vezes, deixou os pais enlouquecidos, mas conseguiu transformar o vício em algo produtivo. Hoje, aos 27 ano, ele ganha dinheiro jogando e dando dicas a outros jogadores.

    “Eu acho que eu não tenho nenhum tipo de desordem psicológica, eu acho que o que atrapalha um pouco é que eu devia cuidar um pouco mais da minha saúde, ir para uma academia, fazer uma atividade física, que eu acabo não fazendo por tanto tempo sentado na frente de um computador”, afirma William.

    Os homens ainda são maioria entre os jogadores, mas o número de mulheres vem crescendo. Há dois anos, elas representavam 41% dos jogadores. Hoje, já são 47%.

    A aposentada Isabel Ferreira está internada em uma clínica no interior de São Paulo, há quatro meses. Foi a família que pediu ajuda depois de ver que ela tinha se isolado do mundo. “Eu ficava com a porta fechada, eu não sabia quando era dia, quando era noite, eu não tinha noção nenhuma. Eu abandonei minha família”, relata.

    Na clínica, Isabel tem que ficar longe do computador: “Se a gente se apegar ao mundo virtual, nós nos esquecemos do que é verdade”.

    domingo, 14 de dezembro de 2014

    IBOGAÍNA - TERAPIA POLEMICA

    A revista Veja São Paulo de 17 de Dezembro de 2014 Traz a matéria "TERAPIA POLÊMICA: DROGA ALUCINÓGENA EXTRAÍDA DA RAIZ DE UMA PLANTA AFRICANA É USADA POR PAULISTANOS PARA SE LIVRAREM DO VÍCIO DA COCAÍNA, DO CRACK E DA HEROÍNA", de Aretha Yarak.
    A matéria conta que a ibogaína, extraída da raiz da iboga (chá ou em cápsulas), tem um efeito alucinógeno utilizado para aliviar sintomas de abstinência. O transe (dura de 24 a 36 horas) pode ser fatal por reduzir muito a frequencia cardíaca. A substância não é aprovada no Brasil, mas pode ser comercializada no Canadá, Nova Zelândia, México e na maioria dos países da América Central.
    Algumas contra-indicações são pacientes com quadros psicóticos, com problemas no fígado e coração e uso de antidepressivos.
    Sua ação no cérebro ainda é incerta.
    Um estudo da Unifesp mostrou abandono de consumo de cocaína , maconha, crack e álcool de 61% , mas a Psiquiatra Ana Cecília Marques da ABEAD (Associação Brasileira de Estudo do Álcool e outras Drogas), afirma que "são necessários anos de pesquisas para confirmar os dados, mesmo que as primeiras evidências apontem para resultados positivos".

    A MACONHA É UMA DROGA - Veja 17 de dezembro de 2014

    Adriana Dias Lopes assina matéria na Revista Veja de 17 de Dezembro de 2014 intitulada "A Maconha é uma Droga".

    Uma pesquisa coordenada por Francesca Filbey na Faculdade de Comportamento e Ciências do Cérebro da Universidade do Cérebro nos EUA comprovou os danos do uso crônico da maconha.
    Segundo a pesquisa, realizada com jovens de idade média de 29 anos, o uso de maconha 4 vezes por semana ao longo de 8 anos alteram a arquitetura e o funcionamento do cérebro. Afeta o córtex orbitoffrontal prejudicando a tomada de decisões e a motivação. O risco de desenvolver depressão e transtorno afetivo bipolar dobra, o de esquizofrenia triplica! Há ainda aumento de impulsividade, perda de crítica e redução da capacidade de organização.

    O Psiquiatra Jaime Hallak, da USP de Ribeirão Preto, explica os danos do uso de maconha na adolescência, época na qual ocorre a poda neuronal - triagem das sinapses que devem ser preservadas e das que serão eliminadas - "a droga faz com que as sinapses que deveriam se fortalecer se tornem débeis e as que deveriam desaparecer ganham força".

    O THC imita a ação de substancias naturalmente fabricadas pelo corpo - os endocanabidióides - nem o álcool, nem a cocaína nem o crack afetam o cérebro de modo tão intenso e por tanto tempo após a interrupção do uso.

    A matéria fala ainda dos riscos associados ao uso agudo, como paranóia, quadros psicóticos, quadros de pânico e ansiedade, e conclui que a maconha é sempre uma droga.

    domingo, 10 de novembro de 2013

    REVISTA VEJA 13 DE NOVEMBRO DE 2013 - "MACONHA"

    A revista veja de 13/11/2013 traz como matéria de capa: "Maconha USA: repórteres de Veja foram aos Estados Unidos e ao Uruguai saber o que muda na vida das pessoas quando a produção, a venda e o uso da droga são legalizados - e viram um negócio lucrativo".

    A repórter Tatiana Gianini escreve que a justificativa para a legalização da produção, comercialização e uso da maconha é o fim dos crimes associados ao narcotráfico. Porém, a maconha representa apenas 30% da receita dos cartéis mexicanos (cocaína 50% e metanfetamina e heroína 20%). Em 2012 os eleitores de Colorado e Washington aprovaram o referendo para legalização do uso recreativo. Em 2014 os maiores de 21 anos poderão comprar balas, cigarros, barrinhas, biscoitos e refrigerantes de maconha.

    A Califórnia liberou o uso terapêutico de maconha na década de 90 e foi imitada por 21 estados. Colorado e Washington foram pioneiros na legalização de uso recreativo.

    A repórter lembra que a maconha possui 2 componentes                   ;
    1- TERAHIDROCANABIDIOL (THC): causa "barato" e alterações sensoriais.
    2- CANABIDIOL (CBD): reduz náusea, dor crônica etc.
    "O que os clientes das lojas especializadas procuram são os produtos com maiores teores de THC, em torno de 15% (as traficadas no Brasil, EUA e México têm Entre 4 e 6%). Estima-se que apenas 20% das vendas aconteçam realmente para tratamento. O laboratório X-Tracted, de Seattle, produz pílulas e melaço de maconha com teores de THC de até 95%. "Existem relatos de que podem causar confusão mental, náuseas, ansiedade, paranoia e alucinações".





    domingo, 7 de julho de 2013

    DSM V - Transtorno do uso do Tabaco


    Transtorno de Uso do Tabaco

    Critérios Diagnósticos

    A. Padrão de uso problemático do tabaco levando a prejuizo clinicamente significativo ou

    desconforto, definidos por pelo menos dois dos seguintes, em periodo de 12 meses:

    1. O Tabaco é usado geralmente em quantidades maiores ou por periodos mais longos

    que os pretendidos

    2. Há um desejo persistente ou esforços mal sucedidos de reduzir ou controlar o uso do

    tabaco.

    3. Muito tempo gasto em atividades necessárias para obter ou usar o tabaco.

    4. Craving, ou um forte desejo ou urgência de usar tabaco.

    5. Uso recorrente de tabaco resultando em falha no cumprimento de importantes

    obrigações no trabalho, escola ou casa.

    6. Uso continuado do tabaco apesar de ter problemas persistentes ou recorrentes sociais

    ou interpessoais causados ou exacerbados pelos efeitos do tabaco ( por exemplo,

    discussões com outros devido ao uso do tabaco)

    7. Atividades importantes, sociais, ocupacionais ou recreativas abandonadas devido ao

    uso do tabaco.

    8. Uso recorrente do tabaco em situações em que é fisicamente perigoso ( por exemplo

    fumar na cama).

    9. Uso do tabaco é continuado apesar de saber ter um problema persistente ou

    recorrente, fisico ou psicológico que provavelmente foi causado ou exacerbado pelo

    tabaco.

    10.Tolerância, definida por um dos seguintes:

    a. necessidade de acentuado aumento nas quantidades de tabaco para atingir o efeito

    desejado.

    b. um efeito acentuadamente diminuido com o uso continuado da mesma quantidade de

    tabaco.

    11. Abstinência, manifestada por um dos seguintes:

    a. a sindrome de abstinência caracteristica do tabaco

    b. o tabaco( ou substâncias relacionadas, tais como nicotina) consumido para aliviar ou

    evitar sintomas de abstinência.

    Especificadores:

    em remissão precoce:depois de preencher critérios para o transtorno acima, não

    preencheu nenhum critério por pelo menos 3 meses mas por menos tempo do que 12

    meses, com exceção do craving, que pode estar presente.

    em remissão mantida: depois de preencher citérios para o transtorno acima, já não

    preenche nenhum, com exceção da possibilidade de craving por 12 meses ou mais.


    Especificar se:

    em terapia de manutenção: individuo em medicação de manutenção por longo tempo,

    como reposição de nicotina, e não preenche critérios para o transtorno de uso do

    tabaco( com exceção de tolerância ou abstinência da reposição de nicotina).Também

    válido para individuos mantidos com bupropiona ou vareniclina.

    em ambiente controlado: para individuos mantidos em ambientes onde o tabaco é restrito.

    Caracteristicas Diagnósticas:

    Transtorno de uso do tabaco é comum entre individuos que usam cigarros ou tabaco sem

    fumaça diariamente e é incomum entre individuos que não usam tabaco diariamente ou

    que usam medicações nicotinicas. A tolerância ao tabaco é exemplificada pelo

    desaparecimento da náusea e tontura após uso repetido e por efeito mais intenso do

    primeiro uso do tabaco do dia. A cessação do uso de tabaco produz uma sindrome de

    abstinência bem definida. Muitas pessoas com transtorno do uso de tabaco usam tabaco

    para aliviar ou evitar sintomas de abstinência.

    Muitas pessoas com doenças causadas pelo tabaco continuam a usa-lo. A grande maioria

    relata craving quando não fuma por muitas horas.

    Fatores de Risco e Prognóstico

    Temperamentais: Pessoas com traços externalizadores de personalidade são mais

    susceptiveis a iniciação do tabaco. Crianças com transtornos de deficit de atenção e

    hiperatividade ou transtornos de conduta e adultos com transtornos depressivos,

    bipolares, de ansiedade, personalidade, psicóticos ou de outras substâncias, tem maior

    risco de começar ou continuar a usar tabaco ou desenvolver transtorno de uso de tabaco.

    Ambientais: Pessoas de baixa renda e baixo nivel educacional são mais susceptiveis.

    Genéticos e Fisiológicos: Fatores genéticos contribuem para a iniciação do uso de

    tabaco,a continuidade, desenvolvimento do transtorno de uso do tabaco, com um grau de

    herdabilidade equivalente aos transtornos do uso de outras substâncias( cerca de 50%).

    Parte deste risco é especifico para tabaco, e parte é comum a vulnerabilidade de

    desenvolver qualquer transtorno de uso de substância.
     

    terça-feira, 2 de julho de 2013

    Tratamento do Tabagismo - Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia



    Esta atualização representa um forte compromisso da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia com a cessação do tabagismo, pois fornece aos profissionais de saúde um instrumento abrangente sobre os principais aspectos ligados à dependência do tabaco. 


    A dependência do tabaco é cada vez mais reconhecida como uma condição crônica que pode necessitar de repetidas intervenções. Além disso, evidências recentes embasam o papel fundamental do aconselhamento tanto em intervenção isolada ou em grupo quanto associada ao tratamento farmacológico.


    Foi empregado o método de seleção baseado em evidências para a busca de referências na literatura especializada,  seguido de revisão crítica por pares que, ao final, apresentaram suas recomendações.

    A decisão de adotar quaisquer destas orientações deve ser tomada pelo profissional, levando em consideração os recursos disponíveis em seu local de atuação e as circunstâncias específicas apresentadas pelo paciente. Embora este documento apresente as principais recomendações para cada situação, devido à limitação do espaço para publicação são fornecidas referências adicionais que permitirão aos interessados aprofundar seu conhecimento científico no assunto.

    Estas diretrizes constituem uma ferramenta atualizada e abrangente para auxiliar o profissional de saúde na abordagem do tabagista, seja nas unidades públicas de saúde ou na clínica privada.

    Deve-se enfatizar o papel do estado e das políticas públicas no reconhecimento do tabagismo como um problema de saúde pública para que o tratamento seja disponibilizado a todos os fumantes, tanto no Sistema Único de Saúde quanto no Sistema de Saúde Suplementar.

    Orientação para interpretar o nível de evidência

    As referências bibliográficas são citadas numericamente por ordem de entrada no texto, seguidas do grau de recomendação A, B, C ou D, onde couber. A classificação do grau de recomendação, que corresponde à nível de evidência científica do trabalho, foi fundamentada com base nos Centros de Medicina Baseada em Evidências, particularmente o Centro Cochrane—Cochrane Review,(1) em estudos de meta-análise, em ensaios clínicos randomizados publicados em revistas nacionais e internacionais e na recente revisão do Surgeon General, publicada em maio de 2008.(2)

     Todos os graus de recomendação, incluindo o "D", baseiam-se em evidências científicas. As diferenças entre as forças de evidência A, B, C e D devem-se exclusivamente ao desenho empregado na geração da evidência.

    A correspondência entre o grau de recomendação e o nível de evidência científica está resumida a seguir:

    a) estudos experimentais ou observacionais de melhor consistência
    b) estudos experimentais ou observacionais de menor consistência
    c) relatos de caso e estudos não controlados
    d) opinião desprovida de avaliação crítica, baseada em consensos, estudos fisiológicos ou modelos animais

    A utilização do grau de recomendação associado à citação bibliográfica no texto tem como objetivos principais: conferir transparência à procedência das informações; estimular a busca da evidência científica de maior força; e introduzir uma forma didática e simples de auxiliar na avaliação crítica do leitor, que é quem arca com a responsabilidade da decisão frente ao paciente que orienta.

    Abordagem diagnóstica
    Avaliação clínica

    O fumante deve ser submetido a avaliação clínica no momento da admissão no programa de cessação do tabagismo. O objetivo é identificar alterações funcionais pulmonares, existência de doenças relacionadas ao tabagismo (DRT), possíveis contra-indicações e interações medicamentosas durante o tratamento farmacológico da dependência. É neste momento que também é avaliado o perfil do fumante, seu grau de dependência à nicotina e sua motivação para deixar de fumar.

    A avaliação deve incluir história clínica minuciosa, exame físico completo e alguns exames complementares, dependendo da disponibilidade dos recursos diagnósticos locais.

    A realização da radiografia de tórax é fundamental durante o tratamento. A boa relação médico-paciente, a sensibilidade e a capacidade de observação do profissional apontarão a hora mais adequada. Algumas pessoas têm receio do que pode ser encontrado, por vezes se afastando do atendimento para não enfrentar a situação.

    História tabagística
    Idade de início, número de cigarros fumados por dia, tentativas de cessação, tratamentos anteriores com ou sem sucesso, recaídas e prováveis causas, sintomas de abstinência, exposição passiva ao fumo, formas de convivência com outros fumantes (casa/trabalho) e fatores associados (café após as refeições, telefonar, consumo de bebida alcoólica, ansiedade e outros).
    Grau de dependência
    Teste de Fagerström para dependência à nicotina.
    Grau de motivação
    Estágio motivacional (Modelo transteórico comportamental de Prochaska e DiClemente). Atividade física habitual e oscilações do peso corporal.
    • Sintomas
    Tosse, expectoração, chiado, dispnéia, dor torácica, palpitações, claudicação intermitente, tontura e desmaios.
    • Investigação de co-morbidades
    Doenças prévias ou atuais que possam interferir no curso ou no manejo do tratamento: lesões orais, úlcera péptica, hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, cardiopatias, transtornos psiquiátricos (depressão, ansiedade, pânico, anorexia nervosa, bulimia, etc.), uso de álcool e/ou outras drogas, pneumopatias, epilepsia, AVE, dermatopatias, câncer, nefropatias, hepatopatias, história de convulsão, entre outras.
    Medicamentos em uso
    Levantamento dos medicamentos que possam interferir no manejo do tratamento, como antidepressivos, inibidores da MAO, carbamazepina, cimetidina, barbitúricos, fenitoína, antipsicóticos, teofilina, corticosteróides sistêmicos, pseudo-efedrina, hipoglicemiante oral e insulina, entre outros.
    Alergias
    De qualquer etiologia, como cutâneas, respiratórias e medicamentosas.
    Situações que demandam cautela
    Principalmente as relacionadas ao uso de apoio medicamentoso, por exemplo, gravidez, amamentação, IAM ou AVE recente, arritmias graves, uso de psicotrópicos e outras situações. Recomenda-se cautela também com os adolescentes e idosos.
    Antecedentes familiares
    Avaliar problemas de saúde familiares, principalmente se relacionados ao tabagismo, em especial a existência de outros fumantes que convivam com o paciente.
    • Exame físico
    Sempre completo, buscando sinais que possam indicar existência de doenças atuais ou limitações ao tratamento medicamentoso a ser proposto.
    Exames complementares
    Rotina básica: radiografia de tórax, espirometria pré e pós broncodilatador, eletrocardiograma, hemograma completo, bioquímica sérica e urinária. Medidas do COex e da cotinina (urinária, sérica ou salivar) são úteis na avaliação e no seguimento do fumante e devem ser utilizadas, quando disponíveis.

    A demanda inclui desde pessoas "saudáveis", que procuram apoio apenas para deixar de fumar, até pessoas que já apresentam sinais e sintomas de DRT ou de outras co-morbidades, incluindo algumas gravemente enfermas, buscando reconquistar a saúde e/ou qualidade de vida.

    A avaliação clínica inicial é semelhante em todos os grupos. A forma de abordagem é que deve ser diferenciada e será discutida adiante, neste documento.

    Os exames complementares podem ser úteis para auxiliar na motivação do paciente para a cessação do tabagismo. Quando os resultados são normais, tranqüilizar e indicar que esta é a melhor hora para deixar de fumar, pois ainda não apresenta as DRT. Se alterados, podem servir de alerta: é melhor parar, impedindo novos danos, e tentar reconquistar a saúde. Evidências sobre o impacto de medidas como esta e outras na condução dos casos serão discutidas também em outros capítulos

    Avaliação do grau de dependência

     

    Um dos primeiros instrumentos desenvolvidos para avaliar a dependência à nicotina foi o Fagerström Tolerance Questionnaire (FTQ, Questionário de Tolerância de Fagerström), constituído de oito questões.(3) Um estudo posterior sugeriu um índice denominado heaviness of smoking index (HSI), resultante da combinação das medidas relacionadas ao tempo para consumir o primeiro cigarro do dia e o consumo médio diário de cigarros.(4)
    O índice HSI foi considerado na revisão do FTQ, levando à versão de seis perguntas conhecida como o Fagerström test for nicotine dependence (FTND, teste de Fagerström para a dependência à nicotina),(5) que é amplamente utilizada na avaliação da dependência à nicotina (Quadro 2). Uma soma acima de seis pontos indica que, provavelmente, o paciente terá desconforto significativo (síndrome de abstinência) ao deixar de fumar.(6)
    Outros critérios aplicáveis ao diagnóstico da dependência à nicotina são os do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Estatístico e Diagnóstico das Desordens Mentais), em suas 3ª e 4ª edições (DSM-III e DSM-IV, respectivamente).(7,8) Com a exceção dos sintomas de abstinência específicos da nicotina descritos no DSM-IV, os critérios de dependência são aplicáveis a uma ampla gama de substâncias psicoativas.
    A vantagem do FTQ é que ele foi desenvolvido especificamente para avaliar a dependência física à nicotina. As correlações entre o FTQ/FTND e o diagnóstico de dependência à nicotina pelo DSM-IV são baixas a moderadas, sugerindo, então, que esses instrumentos capturam dimensões diferentes da adição à nicotina. Os critérios do DSM-IV são apresentados no Quadro 3.
    Os itens que correspondem ao uso, em geral, de substâncias psicoativas compreendem os critérios do DSM-IV para dependência à nicotina, os quais incluem tolerância e seis outros critérios. Assim, o próprio indivíduo percebe que o comportamento de uso da nicotina já se tornou um problema que afeta, de algum modo, a sua vida. Já no FTND os itens são mais objetivos.

    Deve-se ter em mente a complexidade da dependência à nicotina, e ainda que estão sendo desenvolvidos instrumentos que consigam captar as suas várias dimensões. No momento ainda não existem medidas de dependência à nicotina que


    1. Quanto tempo após acordar você fuma seu primeiro cigarro?
    (3) nos primeiros 5 minutos
    (2) de 6 a 30 minutos
    (1) de 31 a 60 minutos
    (0) mais de 60 minutos
    2. Você acha difícil não fumar em lugares proibidos?
    (1) sim
    (0) não
    3. Qual o cigarro do dia que traz mais satisfação?
    (1) o 1° da manhã
    (0) os outros
    4. Quantos cigarros você fuma por dia?
    (0) menos de 10
    (1) 11-20
    (2) 21-30
    (3) mais de 31
    5. Você fuma mais freqüentemente pela manhã?
    (1) sim
    (0) não
    6. Você fuma mesmo doente, quando precisa ficar acamado a maior parte do tempo?
    (1) sim
    (0) não
    Total: 0-2 = muito baixa; 3-4 = baixa; 5 = média; 6-7 = elevada; 8-10 = muito elevada



    incorporem os parâmetros dos processos neuropatológicos subjacentes e que determinem a sua severidade.

    Outros meios para avaliar a dependência à nicotina são os testes para medir o seu principal metabólito—a cotinina—e o monóxido de carbono no ar expirado (COex). Esses testes são muito úteis, quando disponíveis, para monitorar os progressos alcançados pelo fumante em avaliações seriadas. Na determinação da cotinina salivar, sérica e urinária, o ponto de corte para fumantes ativos é considerado a partir de valores acima de 10, 15 e 100 ng/ml, respectivamente.(9-11) Em geral, os níveis de cotinina se correlacionam bem com a intensidade de dependência medida pelo FTND.(9,10)


    A mensuração do COex é um indicador de fácil emprego, baixo custo, não invasivo e que permite a obtenção de resultado imediato, com o valor de corte do COex acima de 6 ppm apresentando boa especificidade para aferir o hábito tabágico.

     

    TABAGISMO - NICOTINA


    COMO AJUDAR SEU PACIENTE A PARAR DE FUMAR
    Ronaldo Laranjeira, Maria Tereza Cruz Lourenço, Helena B. Sarnaia
    INTRODUÇÃO:
     
    Atualmente estima-se que 50% da população americana nunca fumou enquanto 25% são fumantes a 25%

    são ex-fumantes. 0 custo social do fumo é altíssimo; 3 milhões de pessoas morrem por ano no mundo devido

    ao cigarro. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), se a tendência atual permanecer a

    mesma, no ano 2020 morrerão no mundo dez milhões de pessoas por ano. 0 fumo corresponde a 20% das

    mortes nos EUA a representa hoje a primeira causa de mortalidade que poderia ser prevenida,

    correspondendo a 450 mil mortes por ano. A dieta é a segunda causa com 14% das mortes e o abuso de

    álcool a terceira com 5%. No Brasil temos muito poucos danos registrando o custo social dessa
    dependência, mas aproximadamente 35% dos homens são fumantes.

    0 papel do clínico em relação ao tabagismo é por demais importante. A Associação Médica Americana está

    no momento treinando cerca de cem mil médicos para identificar a aconselhar os pacientes com problemas

    relacionados ao álcool e ao fumo. No Reino Unido, onde os clínicos gerais têm um contrato formal com o

    governo sobre as suas funções, faz pane desse contrato perguntar e orientar sobre álcool a fumo todos


    os pacientes que comparecem à consulta. Essas ações foram consequências de inúmeras pesquisas que

    mostraram a eficácia de intervenções breves com fumantes feitas pelo clínico. Assim fica claro que o fumo

    não é um problema só da esfera do especialista, mas é um problema de saúde pública a que todos os

    clínicos deveriam estar atentos e com formação a informação para orientar seus pacientes de uma forma

    simples a objetiva no seu dia-a-dia.

    Apesar da importância do fumo na clínica, existe uma grande relutância dos médicos em aconselharem seus

    pacientes a pararem de fumar. Existem evidências de que basta de três a cinco minutos de
    aconselhamentodireto sobre o fumo para que 8% dos pacientes parem de fumar. Muito embora esse
    número aparentemente seja pequeno, quando traduzido para as milhões de consultas feitas a cada ano,
    podemos ter idéia do real impacto em termos de saúde pública. Alguns conceitos descritos a seguir são
    importantes para que o clínico possa sentir-se confortável em aconselhar os pacientes a pararem de fumar.
    Dependência DA NICOTINA
    Dependência é um comportamento de má adaptação à determinada substância, levando a problemas

    clínicos importantes, associado à dificuldade de controle do uso, apresentação de sintomas de abstinência

    com a falta ou a diminuição da droga a tolerância aos seus efeitos. Nas classificações atuais fica claro que a

    droga não tem que governar a vida de uma pessoa para ela ser chamada de dependente, como também que

    dependência representa um continuum em intensidade, ou seja, um indivíduo pode ser mais ou menos

    dependente e não apenas ser ou não dependente.

    A nicotina não produz manifestações psíquicas com o seu uso. Por exemplo, não se fica agressivo ou


    eufórico com a nicotina, mas o padrão de consumo dos fumantes é típico de uma droga que produz

    dependência.

    A nicotina é rapidamente absorvida pelos pulmões e mucosa oral, passa para a corrente sanguínea e está
    à disposição no cérebro em 7-9 segundos. Sua meia-vida é de duas horas. 0 padrão de consumo da
    nicotina é um modelo de dependência de uma droga onde o consumo do cigarro para aliviar

    os sintomas de abstinência que ocorrem ao longo do dia é muito claro. 0 fumante acorda pela manhã,

    quando apresenta sintomas de abstinência (dificuldade de concentração, ansiedade e vontade de fumar)

    começa a fumar na primeira hora do dia. Cerca de 80% dos fumantes fumam nesse período. Durante o dia

    acabam fumando um cigarro a cada hora. É por isso que 90% dos fumantes consomem pelo menos 14

    cigarros por dia.
    Principais sintomas de dependência da nicotina:

    Tolerância - A necessidade de quantidades cada vez maiores de uma droga para se obter os mesmos

    efeitos anteriores. - A maioria dos fumantes começa com alguns cigarros por dia e faz uma escalada até


    chegar a 20 cigarros por dia.

    Abstinência - Presença de sintomas de abstinência característicos da falta de nicotina. - 0 padrão típico de

    um fumante é acender o primeiro cigarro na primeira hora após o despertar. Isso se deve ao fato de os níveis


    de nicotina plasmático estarem próximos a zero e o fumante sente alguns sintomas de abstinência como:

    menor concentração e atenção, ansiedade, vontade de fumar. Após o primeiro cigarro do dia, ele continuará

    fumando cerca de um cigarro por hora para manter o nível plasmático de nicotina.

    A droga é usada em quantidades maiores ou por um tempo maior do que o desejado. -

    A maioria dos fumantes (80%) deseja parar de fumar, mas tem dificuldades em parar.


    O uso da droga se mantém, independente do conhecimento do dano físico ou psicológico advindo dele. -

    A maioria dos fumantes já teve ou tem algum problema físico relacionado ao cigarro e apesar disso continua

    a fumar.
    ABSTINÊNCIA DA NICOTINA
    Muitos fumantes tentam parar de fumar sozinhos, porém a maioria não consegue por apresentar sintomas de

    abstinência e não saber reconhecê-los como tal. Na realidade não são todos os fumantes que apresentam

    sintomas de abstinência; 70% apresentam algum desconforto relacionado com abstinência após a

    interrupção do cigarro. Os sintomas normalmente aparecem horas após a parada do fumar e podem durar

    até um mês (até oito semanas), sendo o pico de sua duração as duas primeiras semanas. 0 paciente
    apresenta ansiedade, fica inquieto, irritado, mais agressivo, deprimido, refere

    diminuição da concentração e atenção e aumento do apetite. Pode-se observar alterações do EEG,

    diminuição dos batimentos cardíacos e PA, vasodilatação periférica, alterações do sono, aumento do peso e

    diminuição da performance em provas de vigilância e memória. 0 sintoma mais típico é o "craving", ou seja,

    uma vontade de fumar intensa e inexplicável.
    COMO MOTIVAR ALGUÉM PARA O TRATAMENTO
    Por muito tempo entendeu-se motivação como um traço imutável, ou seja, ou alguém está motivado para

    mudar seu comportamento e aí o clínico pode ajudar, ou não está motivado, portanto nada pode ser feito.

    Atualmente entende-se motivação como um processo psicológico que pode ser acelerado ou não pela

    intervenção do clínico. 0 primeiro estágio seria chamado de pré-contemplação, onde o usuário de uma

    droga não planeja mudar seu comportamento num futuro próximo. Isso talvez por acreditar que os benefícios


    do uso compensam um possível e eventual custo, porque os aspectos negativos do uso da droga são

    subestímados por falta de informação, de insight ou negação pura e simples. 0 estágio seguinte é o da
    contemplação, que é o período em que o custo-benefício do uso da substância pode ser avaliado de uma

    forma um pouco mais realista, e a possibilidade de considerar algumas mudanças de comportamento estaria

    mais presente. Este estágio pode demorar minutos ou mesmo anos. 0 estágio seguinte é o da ação, onde

    mudanças concretas podem ser feitas. Estas mudanças podem ser das mais variadas: o paciente pode tentar


    diminuir o consumo por si mesmo, pode conversar com alguém importante sobre seu problema ou pode

    procurar um médico para parar de fumar. 0 próximo estágio é o da manutenção, onde mudanças

    significativas no estilo de vida deveriam ser feitas para consolidar a nova forma de comportamento sem a


    substância.

    Após passar por esses estágios, é possível e bastante provável ocorrer uma recaída. Após esta, o ciclo se

    inicia outra vez, porém não necessariamente da fase da pré-contemplação, pois ele não é linear. Sabe-se

    que para uma pessoa parar de fumar de uma forma definitiva normalmente estão envolvidas a quatro

    tentativas anteriores. É fundamental que o médico ajude seu paciente a trocar a desistência pela

    persistência!

    Lembre-se dos quatro "A" do fumo: argüir, aconselhar, assistir e acompanhar:
    Argüir refere-se a perguntar sempre para o seu paciente sobre o fumo e tentar alocá-lo em alguma das fases

    citadas. Quando seu paciente está na fase de pré-contemplação (35% dos pacientes estarão nesta fase em


    qualquer tempo), seu papel é fornecer-lhe informações sobre as vantagens de parar de fumar. Se o paciente

    está na fase de contemplação (34% a 47% sempre estarão nesta fase) seu papel é aconselhar.

    Aconselhar quer dizer explicar os malefícios, deixando bem claro os benefícios de parar de fumar, como por

    exemplo:


    1. Pessoas que param de fumar aos 50 anos diminuem pela metade a chance de morrer nos próximos 15

    anos, comparadas aos que não param de fumar;

    2. Apenas um ano após a parada, o risco de problemas cardíacos diminui pela metade;

    3. Grávidas que param de fumar no primeiro trimestre evitam que o feto tenha baixo peso. Nessa fase

    também é importante discutir com o paciente sobre barreiras pára a parada e mitos que se conta, por

    exemplo: não vou me concentrar no trabalho, vou engordar muito etc.

    Quando o paciente encontra-se na fase da ação (15% estão nesta fase) o papel do médico é assisti-lo.

    Assistir refere-se a ajudá-lo a decidir o dia "D" da parada e discutir com ele sobre os sintomas de

    abstinência e a correta utilização da reposição de nicotina. Aqui também é importante explicar que a tosse e


    o catarro matinais podem piorar no início do tratamento, pois com a ausência da fumaça os batimentos

    ciliares da árvore brônquica retornarão, o que movimenta a secreção.

    Alguns conselhos úteis para o paciente:

    1. Informar aos amigos, à família e aos colegas de trabalho da tentativa de parar de fumar, pedindo ajuda e

    apoio;

    2. Remover cigarros de casa, carro e local de trabalho, bem como cinzeiros e qualquer outro utensílio que

    lembre o fumo;

    3. Rever tentativas de parar de fumar anteriores e lembrar dos fatores que ajudavam e dos fatores que

    atrapalhavam;

    4. Antecipar as eventuais dificuldades em parar de fumar e buscar contorná-las;

    5. A abstinência total é a melhor forma de efetivamente parar de fumar; o paciente deve programar-se para

    evitar mesmo uma simples tragada;

    6. Evitar beber álcool, pois facilita a recaída.

    Finalmente vem a fase da manutenção em que seu papel é acompanhá-lo. Acompanhar significa
    providenciar um seguimento adequado; a primeira consulta após a parada não pode exceder duas semanas;


    as consultas subseqüentes ou telefonemas devem ficar combinados para que o status de não fumante fique

    cuidado. 0 médico deve estar preparado para conversar abertamente sobre a recaída e orientar o paciente

    sobre essa possibilidade. Não pode nem ficar ofuscado com o eventual sucesso inicial nem desanimado pela

    possível recaída. A recaída ocorre com muita freqüência, portanto a melhor atitude do clínico deve ser

    pragmática. Se o paciente fumou, deve-se conversar em qual situação isso ocorreu e pensar em estratégias

    alternativas. Lembrar o paciente de que a recaída, muito embora indesejável, pode ocorrer, mas que de

    forma alguma deve-se desviar do objetivo final de abstinência total. Deve-se parabenizá-lo pelo sucesso de

    uma forma clara e com entusiasmo.
    REPOSIÇÃO DA NICOTINA
    0 objetivo da reposição da nicotina é o de diminuir os sintomas de abstinência, aumentando a adesão do

    paciente. Vários estudos têm comprovado a eficácia da reposição da nicotina, mostrando que dobram os
    índices de sucesso ao longo dos meses. Os estudos mostram também que um aconselhamento

    mínimo por parte do médico é necessário para que o efeito da nicotina ocorra. 0 grupo que mais se beneficia

    da terapia de reposição é aquele representado pelos fumantes pesados, ou seja, aqueles que vão apresentar

    muitos sintomas de abstinência. Aconselhamos o uso de reposição em todos os pacientes:

    a) que fumam mais que 15 cigarros por dia;

    b) que fumam seu primeiro cigarro até 60 minutos após acordarem;

    c) que apresentaram sintomas de abstinência em tentativas de parar anteriores;

    d) que fizeram várias tentativas anteriores para parar de fumar;

    e) pacientes altamente motivadas para parar de fumar e que não estão grávidas no momento.
    Adesivo de nicotina
    0 adesivo permite a absorção da nicotina através da pele; aproximadamente 0,9 mg de nicotina são

    absorvidos por hora. Deve ser aplicado logo pela manhã em qualquer região do corpo onde não existam

    pêlos. Deve-se orientar o paciente a variar os locais de aplicação para evitar pruridos. Os efeitos colaterais

    mais comuns do adesivo incluem insônia, pesadelos, prurido e edema no local da aplicação.
     Todos eles são transitórios. Ainda não está claro se a insônia é sintoma do adesivo ou da

    abstinência de nicotina. A duração média do tratamento é de quatro semanas, não devendo ultrapassar 12.

    Recomendamos usar o adesivo de 30 mg, e somente no caso de o paciente experimentar algum sintoma

    colateral, como náusea, podemos cortá-lo com a tesoura e usar a metade, ou seja, uma dose menor. 0

    adesivo só deve ser iniciado no dia seguinte após o abandono do cigarro, ou seja, se eu vou parar de fumar

    hoje, eu começo a usar o adesivo amanhã. Não existe necessidade de se fazer um esquema de retirada do

    adesivo, ele pode ser retirado abruptamente. Existem dois produtos vendidos no nosso meio o Nicotinel e o

    Nicolam.
    Goma de mascar de nicotina
    A primeira medicação aprovada pelo FDA (1984) para a reposição de nicotina foi o chiclete de nicotina de 2

    mg; a formulação de 4 mg que ajuda os pacientes a atingirem uma concentração plasmática mais alta com

    menos esforço foi aprovada em 1992. 0 chiclete de nicotina normalmente libera 50% da sua concentração de

    nicotina na boca. Assim, 10 a 12 doses por dia vão nos fornecer mais ou menos 10 mg de nicotina por dia do

    chiclete de 2 mg e 20 mg do de 4 mg, ou seja, um terço da quantidade de uma pessoa que fuma 30 cigarros

    por dia. A absorção do chiclete é diminuída com bebidas ácidas como café. Os efeitos colaterais mais

    comuns com o chiclete são cansaço mandibular, soluços e náusea. Existem poucos trabalhos comparando a

    eficácia do adesivo versus chiclete, ainda com resultados inconclusivos. 0 cuidado importante no uso do

    chiclete é de que o paciente não necessita mascar, o melhor é que ele masque por alguns minutos e deixe o

    chiclete entre a bochecha e a gengiva para facilitar a absorção. No nosso meio existe um produto Nicoqom

    com 2 mg de nicotina.

    Uma estratégia usada, principalmente com pacientes mais dependentes, é aplicar o adesivo de 24 horas e

    fornecer-lhes alguns chicletes para que sejam usados se sentirem algum sintoma de abstinência

    desconfortável, principalmente "craving". Teoricamente não existe contra-indicação ao uso de reposição de

    nicotina aos fumantes, porém não existem trabalhos suficientes em relação a sua reposição em gestantes.

    Cabe ao clínico pesar os riscos e os benefícios.
    Eficácia
    Muitos estudos demonstram redução dos sintomas de abstinência, como ansiedade, irritabilidade, depressão

    e dificuldade de concentração com a reposição de nicotina. A orientação feita pelo clínico, associada à

    reposição de nicotina, diminuem os índices de recaída a longo prazo. Com a reposição da nicotina, as

    porcentagens de abandono do fumo são o dobro das normalmente encontradas.
    Situações que dificultam o parar de fumar

    a) Ganho de peso: Um grande número de fumantes que param de fumar ganham peso. No geral este ganho

    é menor do que 5 kg, mas algumas pessoas podem chegar a 15 kg. As mulheres tendem a ganhar mais peso


    do que os homens e isso pode ser um impedimento importante para buscar uma abstinência total em relação

    ao fumo. Ao paciente deve-se enfatizar que o benefício em termos de saúde em parar de fumar é muitas

    vezes maior do que os riscos de se ganhar transitoriamente alguns quilos a mais. Para os pacientes com

    maiores riscos de ganho de peso, aparentemente o chiclete de nicotina é a melhor opção, pois o ganho de

    peso é menor. 0 clínico não deve minimizar os riscos de ganho de peso e também não deve dar muita

    importância. A busca de uma dieta balanceada, acompanhada de atividades físicas moderadas, aiudam a

    controlar o ganho de peso.
    b) Sintomas de depressão e ansiedade:
    Depressão e ansiedade têm uma prevalência maior em fumantes do que na população geral. Quando esses

    pacientes tentam parar de fumar existe uma chance maior de que os sintomas depressivos ou de ansiedade

    tornem-se mais intensos e um obstáculo para a abstinência. Nessa situação, o clínico deve considerar a

    possibilidade de usar um antidepressivo. Os benzodiazepínicos aparentemente não são muito úteis; a

    combinação da reposição de nicotina com um antidepressivo parece ser a mais conveniente.
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